quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A praça da alegria (Por Adriano Goulart)


Ontem houve um debate entre os candidatos a presidente do Brasil para o ano de 2014. Tudo nos conformes. Um candidato atacando, e dizendo que faria aquilo que o outro não fez, outro se defendendo e dizendo que fez, e que fará mais, e os outros, vários, falando e falando da forma peculiar que adquire um político durante as eleições. Tudo normal. Que alegria!
Hoje nas redes sociais e na internet como um todo, as impressões do debate foram a tona. “Candidato X foi agressivo!”. “Candidato Y enrolou demais e não falou nada!”. “O meu candidato foi melhor!”. “O seu foi pior e fraco!”. Quanto diálogo! Uma praça!

Daí eu me lembrei de quando estudava no curso de comunicação a disciplina de opinião pública. Que fantástico ver uma teoria da área de psicologia-social ser aplicada na prática, para uma quantidade tão grande de pessoas. Acredito que no Brasil estamos perto de 100 milhões de eleitores e isso torna a observação disso ainda mais interessante.

Resumindo de maneira feia, trata-se do seguinte: os grupos de interesse econômico, social e político já estão formados e predispostos a se alinhar a uma das correntes. Os critérios dos membros desses grupos para escolha e participação tem haver com o nível de acesso ao poder público e benefícios que se obterão caso seu candidato seja eleito. No entanto esses grupos sozinhos não garantem os votos suficientes para eleger seus candidatos. Dessa forma, precisam conquistar os votos da maioria esmagadora da população que não tem vínculos diretos com nenhum grupo partidário, são indiferentes ao processo eleitoral e vazias de critérios objetivos que as façam escolher devidamente entre as opções, aqueles candidatos que possam desenvolver o melhor trabalho. 

Assim, estabelecido esse pressuposto, ambas as correntes partem para buscar os eleitores. Essa população “alvo” por uma série de razões tende a optar pelo continuísmo. Pelo governo atual. Porque estão num estagio de comodidade tal, que não há necessidade de mudar nada. Nem melhorar. A não ser que suas vidas diretamente estejam afetadas e caóticas do ponto de vista de suas necessidades básicas, e principalmente que isso seja recente. 

Dessa forma, todo um teatro é organizado de forma que a corrente da oposição, que quer chegar ao poder faz um esforço enorme para demonizar as ideias e as práticas do governo atual, tentando buscar uma sensação de caos e incerteza para o futuro, enquanto que a corrente da situação ignora sumariamente as manifestações e reza para que o pleito acabe logo, e as críticas não tomem uma proporção que afete o imaginário indiferente da população alvo e as faça mudar de ideia na hora do voto. Começa enfim a campanha eleitoral! A verdadeira praça da alegria. E como diverte!

Fica engraçado observar os vários interesses, explícitos, pessoais, de pessoas esbravejando-se na ágora que é a internet e também nas ruas. Coitadas, não conseguem discutir efetivamente sobre assuntos importantes por 15 minutos seguidos durante sua vida toda. Mas seus brados de indignação e revolta durante esse período eleitoral não duram esse tempo todo, portanto fica fácil ser “politizado” naquele momento e participar dessa encenação de alegria ou descontentamento. Quando observamos com uma ótica de que o ser humano é um ser cênico é mais engraçado ainda. Como é fantástico tentar imaginar o que está debaixo da máscara de cada um desses atores.

Porém uma análise política brasileira deveria ser mais séria e complexa. No meu entender ao contrário do que as estratégias publicitárias dos grupos de interesse procuram dizer, não temos direitas ou esquerdas fortes por aqui. As diferenças entre identidades que visam individualidades, concentração do poder e manutenção da propriedade privada de um lado e os favoráveis a coletividade em detrimento da autonomia ou uma suposta liberdade do outro, os entendimentos de sociedade democrática e disseminação de benefícios de maneira igualitária por vezes se misturam e não são fáceis de perceber claramente nos antagonismos dos personagens. 

Não há uma polarização específica. O que existe são grupos caricatos desses dois lados.  Representados por militares raivosos loucos para que a ditadura volte para poder torturar e coagir pessoas, conforme suas conveniências, aliados a uma elite econômica que quer a manutenção de seu privilégio econômico, de preferência submetendo o resto da população as mesmas históricas humilhações que expõem os contrastes, e que mantém a devida distancia entre os que têm, e o que não têm. E no seu inverso, grupos radicais de pessoas presas no tempo de Lenin e Marx, que ainda tem a certeza (falsa e deturpada) de que a revolução comunista fez bem para a humanidade, aliados a uma turma de “soldados do caos” que adoram “apagar fogo com gasolina”. Querem desordem e anarquia por si só. Sem sentido.

E no centro dessa esquerda ou direita desses grupos estamos nós, meros mortais. Que ora estamos ligados aos interesses pontuais, ora nem um pouco atentos ao desenrolar histórico. Sem esquecer dos alienados e indiferentes. Esses vieram só a passeio.

Nesse país os partidos atendem as ideais momentâneos. Proliferam-se. Aqueles que hoje protagonizam essa suposta polarização partidária, há menos de 30 anos estavam do mesmo lado lutando contra uma ditatura. No mesmo palco. E hoje, prós e contra aquilo que se lhes impunha terror há um tempo atrás (e sinistro), estão juntos e bastante misturados em seus gabinetes e assessorias com um interesse atual específico. A continuação de sua carreira política nada saudável.  Não há valor por aqui que dure tanto tempo. Não há concepção clara e coerente. O que há são interesses. 

Políticos mudam de partidos na medida em que suas chances de eleição num novo pleito melhoram ou pioram. Os ideais? O projeto político? Esquece!  Os grandes caciques políticos perpetuam-se no poder, independente das alianças que façam. E são eles que garantem o poder. Esse para mim é o que mais a política brasileira tem de obscura e triste. A perpetuação de grupos políticos tão antigos e terríveis. Em cada localidade há uma família que domina o poder político desde o império até hoje. As gerações se alternam-se nos governos. Enquanto escrevo isso a prova acontece. Um carro de som passa a minha janela divulgando o nome do candidato a deputado “xxyy Junior”.  São Sarneys, Melos, Neves, Malufs, Matarazzos, Alkmins, Lernes, Cardosos, Silvas, Barbalhos, Magalhães, etc...
O que muda? Nada. O interesse pelo poder é o mesmo, as articulações são as mesmas sempre no sentido de beneficiar esses grupos, são eles que ditam as regras e as impõe sobre a população que os circunda. 

No fundo, assimilamos isso e concordamos. O povo brasileiro é corrupto também e beneficia-se dessa sucessão descabida, sempre na espera de que seremos os beneficiados da vez. O que nunca acontece. Uma troca justa? Divulgam-se os candidatos para manter-se no emprego público, balança-se bandeirinhas coloridas nas esquinas em troca de 20,00 reais pelo dia. Isso na cidade. No interior do país, morre-se pelos candidatos. 

A dinâmica do processo eleitoral é tão absurda que desenvolve uma estratégia esplêndida de visibilidade dos candidatos ao executivo, mas paralelamente e não menos importante temos a disputa por cargos do legislativo, onde a corrupção histórica corre solta. A rotina em si é imoral e suja.  Não são os políticos que fazem isso. Somos nós. Pois o mantemos nessas esferas de poder. A cada 2 anos por aqui há um processo eleitoral e o que acontece é que nem um terço desses grupos políticos se renovam. Resultado: as mesmas histórias e a mesma podridão. Não é irônico?  Não.

O programa “Praça da a
legria” foi uma atração humorística que existiu na TV brasileira desde 1957. Concebido por Manuel de Nóbrega, que fazia o personagem de um senhor que sentava em uma praça e dialogava com diversos tipos engraçados. O autor se inspirou durante uma viagem à Argentina, quando, da janela do seu hotel em Buenos Aires, observava, diariamente, um homem sentado num banco de praça conversando com diversas pessoas. Isso o fazia rir. Até hoje, seu filho, Carlos Alberto de Nobrega que sucedeu seu precursor no programa, diverte as famílias com piadas que de inocente nada tem, mas que se contextualizam e se moldam na medida em que o tempo vai passando. O humor é o mesmo, considerado ultrapassado e antigo por muitos, mas ainda faz as pessoas riem e se identificarem com a mensagem. Porque no fundo são caricatas como os personagens.

É interessante como a política brasileira se comporta de maneira parecida. Criticamos de forma agressiva (sempre durante o processo eleitoral), ora defendemos o candidato tal, ora o exaltamos, mas ao final o mesmo continuísmo de sempre. Os mesmos grupos de sempre. Nada muda.

No inicio do programa praça da alegria, sempre havia uma música de apresentação que fazia o ambiente próximo e aconchegante. Mas um trecho dela em específico me chama atenção pois é a essência da ironia, e também da histórica política brasileira:
“A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim. Tudo é igual, estou tão triste, porque eu não tenho, você perto de mim”.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O lírio, o Pedro. (Por Adriano Goulart)


Porque chegou o dia em que os olhos de quem o ama estão fitados em você.
E as lágrimas tem brilho de alegria.

Há céu azul, noite estrelada e muita luz no horizonte para o momento em que estiveres entre nós. O perfume personificado.

Sim. Bendito Pedro! Nosso Lírio! Para os chineses, o verão e fartura. O amor eterno e a pureza. Para os romanos, o pilar. Para mim, meu filho.

Como literatura, façamos juntos às Caçadas de Pedrinho, a experiência das descobertas de além-mar de Álvares Cabral, os relatos de Vaz de Caminha! Já és rocha para minha vida, assim como o Pedro que o Deus vivo proclamou viga para sua Igreja! Sejais o Malasartes, esperto e destemido, sem perder os olhos de menino.

És Pedro! Nosso Pedro. I , II, III e eterno! O esperado! Nosso Pequeno Príncipe! O Grande!
No caminho de Emaús, no livro sagrado, os discípulos tiveram a coragem de convidar “um estranho” para o interior de suas casas. “fica conosco Senhor pois já é tarde”. E esse gesto de coragem com um desconhecido foi a brecha para a maior experiência de suas vidas. O conhecimento profundo e direto do Jesus Messias. Portanto, em nossa tarde de vida, sejas bem-vindo nosso querido desconhecido! Não o Cristo, mas aquele que é presente d´Ele.
Descubramos juntos o Divino amor em família!

Serei seu guia, seu amigo, seu pai. Serei eu, você e sua mãe. Seremos nós e o nosso amor.
Vem Pedro! Compartilha conosco sua humanidade. Sua riqueza de criança. A certeza de que existe o milagre. Sua beleza e seu encanto. Prometo carinho, amor e mãos dadas. Mesmo na dor. Em tudo.

Aquele que veio para alegrar minha vida. No momento mais difícil dela. O momento do perde-e-ganha da vida. Foi-se a Azaleia, veio o Lírio. Suas cores, as essências de vocês estão interligadas. Num delicado traço de perfeição e harmonia.

O que eu tenho para dizer-te Filho meu? Hoje o meu sol nasceu. Para brilhar!
Brilhe! Brilhe!Brilhe!

E que a luz ilumine os seus passos sempre. Da caminhada, do horizonte, da intuição. Saiba que enquanto eu for agraciado com a Graça de ser seu guia temporal, me esforçarei para ser o melhor dentre eles. E quando a minha hora de encerrar a missão se aproximar, fará sentido toda minha oração.

Contemplo-te nesse dia, presente de Deus. Mistério de amor.
Perfeito-Esperança-Divino-Real-Ouro nosso. Meu filho. Nosso Pedro.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Para o amanhã... Por Adriano Goulart

Para o amanhã.

Serei direto.

Amanhã quando eu acordar e não estiver mais aqui, nessa condição temporal em que escrevo, quero ter certeza de que valeu a pena. Quero lembrar que não estive sozinho. Que os que eu amava estavam comigo.
Amanhã quando eu acordar, quero que as minhas irmãs tenham deixado claro pra mim que me amavam.  Que eu era importante. Pelo menos pra elas.

Quero que as nossas vivências tenham sido compartilhadas. Mas de verdade. Não só a vontade. Que não tenham sido palavras de uma bela oratória. Pelo contrário, que tenham sido simples e frequentes. Lúcidas, reais, diárias e próximas.  
Amanhã eu quero acordar e dizer: puta que o pariu como foi bom pois não estava sozinho!

Não quero justificativas. O cotidiano acontece. E pronto. Está implícito em nossa condição humana. Os problemas, as rotinas, os projetos e suas execuções. Mas quando o ultra-valorizamos e fazemos dele a regra, mesmo sem perceber, tornamos os que amamos secundários. E o que nos resta é justificar. Se é que isso é necessário.  Mas como isso dói.

O dia-a-dia é hoje. Agora. Mas e amanhã? O que vai ficar?
Amanhã quero acordar e saber que a biblioteca da minha vida teve livros em comum com as de quem eu amo. Não quero saber de folhas rasgadas ou desaparecidas nos livros dessas estantes coirmãs. Porque quando a minha biblioteca fechar as portas por algum motivo, dos mais diversos que existem, meus filhos, sobrinhos, ainda poderão beber da fonte desses exemplares para saberem como foi a história e ajudar assim a construir as suas próprias. Quero que saibam quem estava nela e como foi divertido ou triste. Que estória bonita foi escrita. Ou se a superficialidade foi o enredo.

Como é que eu faço? Para confirmar o amanhã? Para ter certeza de que ele será colorido como quero que seja. Sinto. Não sou ingênuo. A experiência da vida é um auto do inesperado. A gente sempre sai dela com alguma mensagem moral, ou imoral, sem ter a mínima ideia de como aquilo devidamente aconteceu. Sem saber do roteiro. E muito menos quem foram os escritores. Os colaboradores. Por isso espero que sejamos ao menos bons compiladores.
Ajude-me o meu amanhã ser hoje, já que a sequência está no campo do invisível.  Presentei-me. Seja presente.

A estratégia?
Mudemos o rumo.

A irmã que eu quero. Que eu sempre esperei. Hoje não a foi. Sinto. É a somatória de uma série de ausências que eu quero que mude. Ausências justificadas. É fato. Mas de que adianta se a página compartilhada não foi escrita? Já são passado.
 Por isso que preocupo com o amanhã.

Sabe o lindo jardim que você sonhou um dia no lugar onde eu estava? Quero ele real. E pode ser. Por favor não seja apenas observadora. Que possamos semear nossas flores bem próximas, de preferência juntos, para que quando floresçam o perfume possa nos ser sentido, e vivido bem forte.

Amanhã quando eu acordar e não estiver mais aqui, no presente, quero ter certeza de que valeu a pena. Quero lembrar que não estive sozinho. Que os que eu amava estavam comigo.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Em resposta a ideologia do desenho

Penso o seguinte: Acho que a maioria não vai conseguir ler até o final desse texto, porque não tem costume de leitura mesmo. rsrsr. Mas se o desenho trás uma provocação tão "politizada", tá aí uma resposta a altura: Engraçado porque ninguém discute o por quê dessas crianças que cometem crime não estavam na escola ou fazendo uma coisa que presta no momento em que cometiam os crimes? Nesse momento , logo ali na esquina o tráfico de drogas está correndo solto. 

Por que ninguém discute o por quê aqueles aviõezinhos (soldadinhos novos do tráfico, com 12 ou 13 anos) não estão na escola ou participando de algum projeto bom? Por que ninguém vai lá tirar ele daquela condição? A resposta é fácil. Por que você que quer ver esse menino preso até o crime acontecer jamais olhou para ele ou tentou fazer alguma coisa por ele. 

Se você olhasse direito para aquele menino antes, saberia que a falta de uma família para aquele menino, de escola que preste, falta de atendimento de saúde, falta de educação e roupas adequadas jamais poderiam terminar bem. Mas mesmo assim você sempre foi indiferente a ele. Veja bem, VOCÊ! Então fica fácil pedir a cabeça dele quando ele resolve aprontar. Ninguém nasce bandido, intelectual, professor, juiz, etc... A gente se torna alguma coisa durante a vida. 

Portanto quer ser consciente? Reclame aos seus governantes a condição precária antes do crime acontecer. Faça sua parte. Sabe qual a diferença para a elite, os governantes e a polícia que patrulha as periferias entre o "bebê" (bandido, assassino, estuprador, etc) que mostram na figura e nós, (eu, você, seu irmão, sua irmã, seus amigos)? Simplesmente nenhuma. - Para a elite, somos escória e devemos sofrer as consequências de nossa condição. 

Leis sempre estão a serviço dos que tem dinheiro. E não para mim e para você que somos pobres. Portanto, devemos ter cuidado em simplesmente reproduzir o discurso do opressor. Errados todos nós estamos em algum momento de nossas vidas. Ou você que está lendo é perfeito? Agora o peso da lei em cima de nós pobres é sempre bem maior. Aceitar uma Lei que vai punir severamente o filho do pobre porque ele não tem dinheiro para pagar o advogado (ao contrário dos ricos), é o mesmo que dizer, pronto sociedade! pode acabar comigo! Criança não consegue se defender. 

Deve ser protegida. Cuidada. Bem cuidada. Realmente o povo deve decidir assim como fala a figura. Mas vamos decidir com informações verdadeiras e dos dois lados. Que tal lutarmos por uma Lei que pune a omissão das pessoas? Acho que isso ninguém vai querer, porque não vai sobrar quase ninguém fora da cadeia.  Bora refletir? 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Pedro e a Comunicação

Comunicação.


"Penso, logo existo" (René Descartes) ... "E se existo , interajo com o mundo" (Adriano Goulart) rsrsr.

14 de janeiro, terça-feira, 06:10am, Cleide Lopes me acorda aos gritos de: - Mexeu!, mexeu!

Logicamente atordoado e sem entender muito bem o que estava acontecendo, instintivamente coloco a mão na barriga da mamãe como que em defesa do bebê.

Faz-se um silêncio. . . Total.

Agora acordado e com mais consciência do que estava acontecendo, ouço a esposa dizer baixinho: - ele mexeu.

Meu coração acelerado me conduz a automaticamente a concentrado em meio ao silêncio, verificar o fantástico ocorrido.

Coloco a mão no ventre da mãe.
Fecho os olhos.
Dou levemente duas batidinhas com o dedo.
..... .....

.. "tum tum", foi a resposta do lado de dentro dela.

Era Pedro anunciando: "acordei".

Precisa falar se mamãe e papai piscaram o olho daquele momento em diante?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Vida de bibliotecário: Bibliotecário esse , no que diz respeito a mim mesmo. Agora.

Vida de bibliotecário:
Bibliotecário esse , no que diz respeito a mim mesmo. Agora.

Chega um distinto na porta da minha biblioteca e diz como se tivesse arrasando: 
- Aí amigo, quer ganhar uma Barça (enciclopédia)?
E eu todo educado respondo:
- Muito obrigado senhor, mas não estamos recebendo doações. E também nós já temos a coleção da enciclopédia Barsa.
Aí o cara fica nervosinho , faz uma cara de #@$#&, e diz:
- Pô cara, vou limpar a minha casa hoje. Você vai deixar eu jogar aquele troço no lixo? 
... ... ...    ..... .... ... .... 
Tempo para eu parar, respirar, pensar e respondê-lo:
- Senhor, agradeço , mas realmente nossa biblioteca não está recebendo doações. 
E o cara vai embora resmungando e "tirando onda".
(simultâneamente no meu cerebro circulava coisas do tipo:

1 - Você nunca deu importância para esse material e agora quer responsabilizar uma pessoa que você nem conhece por querer jogar os livros fora? Me poupe.

2 - Seu babaca, você não sabe nem ler, e tá chamando uma enciclopédia de "troço"?

3 - Se o destino que você iria dar para seu material era o lixo, veio ao lugar errado , porque biblitoeca é incompatível com isso. Mas não vou nem parar para te explicar, porque você não vai entender nem desenhando. 

4 - Você e a maioria das pessoas que no final do ano resolvem fazer uma faxina em casa, pensam em levar seus livros (estragados, arrebentados, riscados, sujos e empoeirados) para a biblioteca. Cabe refletir que se nem você vai pegá-lo para ler, por quê nossos usuários fariam isso? Biblioteca não é depósito de livros .E nem bibliotecário é tirador de pó nas estantes. Esse estereótipo já se foi há um bom tempo. Mas também não vou parar para explicar isso, porque nem na biblioteca você vem. Eu teria que desenhar de novo. E correndo o risco de você não entender. 

5 - E por último e não menos importante, se estivesse mesmo querendo dar uma utilidade a esses livros e achasse realmente importante isso, primeiro começaria a ler, coisa que desde sua infância anos você não fez. Ou você já teria dado para uma pessoa que seja importante para você como um parente, amigo, etc.  E não simplesmente, tirar onda com a minha cara, como se fosse algo que te desse status pela posse sobre essa enciclopédia. Essa referência de status por possuir uma coleção como essa já não faz sentido desde a década de 90, quando a internet foi criada. Mas isso é outra estória.
Tenho dito.

... ... .... 

Tudo isso em dois ou três segundos...

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Azaléia, por Adriano Goulart


Azaléia

Ontem eu chorei. Chorei muito. Ontem, anteontem, e os dias atrás também.
Hoje, também ainda choro. Principalmente a noite . No silêncio do travesseiro. E há solidão. E como dói. Daquelas que cortam o peito e desanimam. Profundas e dolorosas. A sensação de que tudo que vivemos foi muito pouco. E foi.
São dois meses. E só agora lhe escrevo. Com as lágrimas tento esvaziar o vazio. Não é redundância. É tentativa. É possível? Não.

Luto.

E ela me amou. Profundamente, como poucos amores acontecem nesse lugar. Um vale de lágrimas, em que uma flor aparece e resplandece com a aparência e verdade do que mais se aproxima do amor de Deus.

Numa ocasião, me defendeu de um grupo de meninos que roubaram de mim a bola. Correu atrás deles como uma leoa defendendo tudo aquilo que tinha. A bola? Não, o filho. Era cedo, 7 anos apenas. Azaléia é a minha heroína. Me protegeu terrenalmente de toda e qualquer ameaça que podia acontecer. Espiritualmente nem se fala. Seria um anjo disfarçado? Era um anjo vivo.

Foi dela o valor maior que carrego hoje em meu coração. O da fé em Deus. Cada oração, cada terço rezado por ela e com ela, ressignificaram meu sentido de esperança nos céus. De alguém que era fiel no Pai Eterno por si só. Uma vida em oblação.

Azaléia tinha um amor especial comigo. Fazia de mim um filho mais filho do que os filhos de fato eram filhos. E eu era neto. Mas correspondi. A minha mãe, Azaléia. Era dela o meu bom dia, a motivação para fazer bonito. Fazer melhor. Era pra ela.

Ela que tinha uma rosto sereno. Que passava batido como a mais tenra e delicada flor e na personalidade era digna de ser comparada com os principais mestres e líderes. Bélicos, políticos, religiosos… gestores.

Era dela que partia todo tipo de ensinamento. Com uma sabedoria absurda. De alguém que conviveu com o passado e fez do presente a mais generosa e consistente história de vida . Azaléia teve uma vida. Terrível e dolorosa. E transformou-a em exemplo e perspectiva para mim. E eu aprendi. Uma vez ela me disse: -”não penso no futuro. Isso é coisa de Deus. Eu só desejo o melhor pra gente”.

Azaléia me buscava na escola. Foi atropelada por causa de mim. Eu era a missão de vida dela. E o Pai me deu a honra dela ser a minha também por um tempo. Cuidou de mim a cada resfriado, dor de cabeça e de barriga. Me dava bicarbonato, mingau, doces e balas. Alegria e perfume. Como era cheirosa minha Azaléia!

Acompanhou com ternura minha juventude. Tínhamos uma sintonia completa. Era minha namorada, minha mãe, minha confidente, meu travesseiro. Era ela. E eu dela.

Eu choro. Porque isso acontece sempre. Mas por ausência dela é novidade. E não é bom.
Queria escrever enquanto há tempo. E meu entendimento e lembrança faz dessa flor a mais linda e inesquecível memória da minha vida. Não sei quanto tempo isso dura. Nem o quanto tempo eu duro. Mas Azaléia foi simplesmente amor puro. Encarnado, convicto e maduro.

Nesse trem da vida, chegou a sua estação. Eu estava logo ali. No assento ao lado. Mas não despediu de mim. Foi de propósito Deus? Se ela tivesse a chance, se tivesse tempo sei que a faria. Num chamado, num olhar. Encostando a testa em mim em silêncio, como fazia quando queria falar algo diretamente ao meu coração. Mas não. Fui dar bom dia e o encantamento já chegara. E se foi.

O vento levou Azaléia para alguns passos a minha frente. Não posso correr atrás. O vento é forte e é ele que nos empurra. Na minha frente tem poeira, já não posso vê-la. Só há terra a frente, onde eu não posso ir. Por enquanto. Que descompasso! Ela que andava sempre segurando a minha mão, em um instante, já nem mais a toca. E agora?

Eu já sabia. Que seria assim. Mas como é difícil! Aquela que me chamava de filho. E era minha mãe. Que me alimentava, me nutria, me fortalecia e me construía. Minha Azaléia.

Desculpe Azaléia. Os últimos dias não foram fáceis. Sou testemunha. Principalmente para uma alma que gostava de viver. Que era jovem e muito forte. Vivia a 94 anos como pétalas de uma bela flor. Bonita, cheirosa e rosa. Saiba que sua dor era a minha dor. A dor da vida. Que caminha e caminha, mas um dia chega no ponto final. E eu chorava escondidinho acompanhando a minha incapacidade de alterar esse rumo.. Mas foi tanto choro escondido que até você percebeu, esperta como era. Eu fiz o que eu podia. Mas foi pouco. E o que eu queria era que mais uma vez, como tantas outras que você dissera para mim, “-é meu filho, dessa eu escapei”. Mas parece que no adiantado da hora, mesmo com o tanto que a provoquei (viva!), o seu cansaço foi mais forte, e o que disse dessa vez foi “ - para o céu agora voltei.”

Uma vez há pouco tempo era dia das mães. E era para minha mãe. Perguntei a Policena: -”o que vou te dar de presente?” Ela respondeu: “- eu já tenho tudo.” Então eu insisti. “-Não, minha mãe tem que ter presente!” E ela: “- Isso Deus já me deu. É você”. Mas já que tanto insiste, me dê a flor que eu mais gosto, Azaléia, que eu já fico contente.”


Adriano Goulart que amará eternamente
Policena de Freitas Goulart (*19/02/1919 - +04/08/2013)