segunda-feira, 28 de abril de 2014

Para o amanhã... Por Adriano Goulart

Para o amanhã.

Serei direto.

Amanhã quando eu acordar e não estiver mais aqui, nessa condição temporal em que escrevo, quero ter certeza de que valeu a pena. Quero lembrar que não estive sozinho. Que os que eu amava estavam comigo.
Amanhã quando eu acordar, quero que as minhas irmãs tenham deixado claro pra mim que me amavam.  Que eu era importante. Pelo menos pra elas.

Quero que as nossas vivências tenham sido compartilhadas. Mas de verdade. Não só a vontade. Que não tenham sido palavras de uma bela oratória. Pelo contrário, que tenham sido simples e frequentes. Lúcidas, reais, diárias e próximas.  
Amanhã eu quero acordar e dizer: puta que o pariu como foi bom pois não estava sozinho!

Não quero justificativas. O cotidiano acontece. E pronto. Está implícito em nossa condição humana. Os problemas, as rotinas, os projetos e suas execuções. Mas quando o ultra-valorizamos e fazemos dele a regra, mesmo sem perceber, tornamos os que amamos secundários. E o que nos resta é justificar. Se é que isso é necessário.  Mas como isso dói.

O dia-a-dia é hoje. Agora. Mas e amanhã? O que vai ficar?
Amanhã quero acordar e saber que a biblioteca da minha vida teve livros em comum com as de quem eu amo. Não quero saber de folhas rasgadas ou desaparecidas nos livros dessas estantes coirmãs. Porque quando a minha biblioteca fechar as portas por algum motivo, dos mais diversos que existem, meus filhos, sobrinhos, ainda poderão beber da fonte desses exemplares para saberem como foi a história e ajudar assim a construir as suas próprias. Quero que saibam quem estava nela e como foi divertido ou triste. Que estória bonita foi escrita. Ou se a superficialidade foi o enredo.

Como é que eu faço? Para confirmar o amanhã? Para ter certeza de que ele será colorido como quero que seja. Sinto. Não sou ingênuo. A experiência da vida é um auto do inesperado. A gente sempre sai dela com alguma mensagem moral, ou imoral, sem ter a mínima ideia de como aquilo devidamente aconteceu. Sem saber do roteiro. E muito menos quem foram os escritores. Os colaboradores. Por isso espero que sejamos ao menos bons compiladores.
Ajude-me o meu amanhã ser hoje, já que a sequência está no campo do invisível.  Presentei-me. Seja presente.

A estratégia?
Mudemos o rumo.

A irmã que eu quero. Que eu sempre esperei. Hoje não a foi. Sinto. É a somatória de uma série de ausências que eu quero que mude. Ausências justificadas. É fato. Mas de que adianta se a página compartilhada não foi escrita? Já são passado.
 Por isso que preocupo com o amanhã.

Sabe o lindo jardim que você sonhou um dia no lugar onde eu estava? Quero ele real. E pode ser. Por favor não seja apenas observadora. Que possamos semear nossas flores bem próximas, de preferência juntos, para que quando floresçam o perfume possa nos ser sentido, e vivido bem forte.

Amanhã quando eu acordar e não estiver mais aqui, no presente, quero ter certeza de que valeu a pena. Quero lembrar que não estive sozinho. Que os que eu amava estavam comigo.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Em resposta a ideologia do desenho

Penso o seguinte: Acho que a maioria não vai conseguir ler até o final desse texto, porque não tem costume de leitura mesmo. rsrsr. Mas se o desenho trás uma provocação tão "politizada", tá aí uma resposta a altura: Engraçado porque ninguém discute o por quê dessas crianças que cometem crime não estavam na escola ou fazendo uma coisa que presta no momento em que cometiam os crimes? Nesse momento , logo ali na esquina o tráfico de drogas está correndo solto. 

Por que ninguém discute o por quê aqueles aviõezinhos (soldadinhos novos do tráfico, com 12 ou 13 anos) não estão na escola ou participando de algum projeto bom? Por que ninguém vai lá tirar ele daquela condição? A resposta é fácil. Por que você que quer ver esse menino preso até o crime acontecer jamais olhou para ele ou tentou fazer alguma coisa por ele. 

Se você olhasse direito para aquele menino antes, saberia que a falta de uma família para aquele menino, de escola que preste, falta de atendimento de saúde, falta de educação e roupas adequadas jamais poderiam terminar bem. Mas mesmo assim você sempre foi indiferente a ele. Veja bem, VOCÊ! Então fica fácil pedir a cabeça dele quando ele resolve aprontar. Ninguém nasce bandido, intelectual, professor, juiz, etc... A gente se torna alguma coisa durante a vida. 

Portanto quer ser consciente? Reclame aos seus governantes a condição precária antes do crime acontecer. Faça sua parte. Sabe qual a diferença para a elite, os governantes e a polícia que patrulha as periferias entre o "bebê" (bandido, assassino, estuprador, etc) que mostram na figura e nós, (eu, você, seu irmão, sua irmã, seus amigos)? Simplesmente nenhuma. - Para a elite, somos escória e devemos sofrer as consequências de nossa condição. 

Leis sempre estão a serviço dos que tem dinheiro. E não para mim e para você que somos pobres. Portanto, devemos ter cuidado em simplesmente reproduzir o discurso do opressor. Errados todos nós estamos em algum momento de nossas vidas. Ou você que está lendo é perfeito? Agora o peso da lei em cima de nós pobres é sempre bem maior. Aceitar uma Lei que vai punir severamente o filho do pobre porque ele não tem dinheiro para pagar o advogado (ao contrário dos ricos), é o mesmo que dizer, pronto sociedade! pode acabar comigo! Criança não consegue se defender. 

Deve ser protegida. Cuidada. Bem cuidada. Realmente o povo deve decidir assim como fala a figura. Mas vamos decidir com informações verdadeiras e dos dois lados. Que tal lutarmos por uma Lei que pune a omissão das pessoas? Acho que isso ninguém vai querer, porque não vai sobrar quase ninguém fora da cadeia.  Bora refletir? 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Pedro e a Comunicação

Comunicação.


"Penso, logo existo" (René Descartes) ... "E se existo , interajo com o mundo" (Adriano Goulart) rsrsr.

14 de janeiro, terça-feira, 06:10am, Cleide Lopes me acorda aos gritos de: - Mexeu!, mexeu!

Logicamente atordoado e sem entender muito bem o que estava acontecendo, instintivamente coloco a mão na barriga da mamãe como que em defesa do bebê.

Faz-se um silêncio. . . Total.

Agora acordado e com mais consciência do que estava acontecendo, ouço a esposa dizer baixinho: - ele mexeu.

Meu coração acelerado me conduz a automaticamente a concentrado em meio ao silêncio, verificar o fantástico ocorrido.

Coloco a mão no ventre da mãe.
Fecho os olhos.
Dou levemente duas batidinhas com o dedo.
..... .....

.. "tum tum", foi a resposta do lado de dentro dela.

Era Pedro anunciando: "acordei".

Precisa falar se mamãe e papai piscaram o olho daquele momento em diante?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Vida de bibliotecário: Bibliotecário esse , no que diz respeito a mim mesmo. Agora.

Vida de bibliotecário:
Bibliotecário esse , no que diz respeito a mim mesmo. Agora.

Chega um distinto na porta da minha biblioteca e diz como se tivesse arrasando: 
- Aí amigo, quer ganhar uma Barça (enciclopédia)?
E eu todo educado respondo:
- Muito obrigado senhor, mas não estamos recebendo doações. E também nós já temos a coleção da enciclopédia Barsa.
Aí o cara fica nervosinho , faz uma cara de #@$#&, e diz:
- Pô cara, vou limpar a minha casa hoje. Você vai deixar eu jogar aquele troço no lixo? 
... ... ...    ..... .... ... .... 
Tempo para eu parar, respirar, pensar e respondê-lo:
- Senhor, agradeço , mas realmente nossa biblioteca não está recebendo doações. 
E o cara vai embora resmungando e "tirando onda".
(simultâneamente no meu cerebro circulava coisas do tipo:

1 - Você nunca deu importância para esse material e agora quer responsabilizar uma pessoa que você nem conhece por querer jogar os livros fora? Me poupe.

2 - Seu babaca, você não sabe nem ler, e tá chamando uma enciclopédia de "troço"?

3 - Se o destino que você iria dar para seu material era o lixo, veio ao lugar errado , porque biblitoeca é incompatível com isso. Mas não vou nem parar para te explicar, porque você não vai entender nem desenhando. 

4 - Você e a maioria das pessoas que no final do ano resolvem fazer uma faxina em casa, pensam em levar seus livros (estragados, arrebentados, riscados, sujos e empoeirados) para a biblioteca. Cabe refletir que se nem você vai pegá-lo para ler, por quê nossos usuários fariam isso? Biblioteca não é depósito de livros .E nem bibliotecário é tirador de pó nas estantes. Esse estereótipo já se foi há um bom tempo. Mas também não vou parar para explicar isso, porque nem na biblioteca você vem. Eu teria que desenhar de novo. E correndo o risco de você não entender. 

5 - E por último e não menos importante, se estivesse mesmo querendo dar uma utilidade a esses livros e achasse realmente importante isso, primeiro começaria a ler, coisa que desde sua infância anos você não fez. Ou você já teria dado para uma pessoa que seja importante para você como um parente, amigo, etc.  E não simplesmente, tirar onda com a minha cara, como se fosse algo que te desse status pela posse sobre essa enciclopédia. Essa referência de status por possuir uma coleção como essa já não faz sentido desde a década de 90, quando a internet foi criada. Mas isso é outra estória.
Tenho dito.

... ... .... 

Tudo isso em dois ou três segundos...

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Azaléia, por Adriano Goulart


Azaléia

Ontem eu chorei. Chorei muito. Ontem, anteontem, e os dias atrás também.
Hoje, também ainda choro. Principalmente a noite . No silêncio do travesseiro. E há solidão. E como dói. Daquelas que cortam o peito e desanimam. Profundas e dolorosas. A sensação de que tudo que vivemos foi muito pouco. E foi.
São dois meses. E só agora lhe escrevo. Com as lágrimas tento esvaziar o vazio. Não é redundância. É tentativa. É possível? Não.

Luto.

E ela me amou. Profundamente, como poucos amores acontecem nesse lugar. Um vale de lágrimas, em que uma flor aparece e resplandece com a aparência e verdade do que mais se aproxima do amor de Deus.

Numa ocasião, me defendeu de um grupo de meninos que roubaram de mim a bola. Correu atrás deles como uma leoa defendendo tudo aquilo que tinha. A bola? Não, o filho. Era cedo, 7 anos apenas. Azaléia é a minha heroína. Me protegeu terrenalmente de toda e qualquer ameaça que podia acontecer. Espiritualmente nem se fala. Seria um anjo disfarçado? Era um anjo vivo.

Foi dela o valor maior que carrego hoje em meu coração. O da fé em Deus. Cada oração, cada terço rezado por ela e com ela, ressignificaram meu sentido de esperança nos céus. De alguém que era fiel no Pai Eterno por si só. Uma vida em oblação.

Azaléia tinha um amor especial comigo. Fazia de mim um filho mais filho do que os filhos de fato eram filhos. E eu era neto. Mas correspondi. A minha mãe, Azaléia. Era dela o meu bom dia, a motivação para fazer bonito. Fazer melhor. Era pra ela.

Ela que tinha uma rosto sereno. Que passava batido como a mais tenra e delicada flor e na personalidade era digna de ser comparada com os principais mestres e líderes. Bélicos, políticos, religiosos… gestores.

Era dela que partia todo tipo de ensinamento. Com uma sabedoria absurda. De alguém que conviveu com o passado e fez do presente a mais generosa e consistente história de vida . Azaléia teve uma vida. Terrível e dolorosa. E transformou-a em exemplo e perspectiva para mim. E eu aprendi. Uma vez ela me disse: -”não penso no futuro. Isso é coisa de Deus. Eu só desejo o melhor pra gente”.

Azaléia me buscava na escola. Foi atropelada por causa de mim. Eu era a missão de vida dela. E o Pai me deu a honra dela ser a minha também por um tempo. Cuidou de mim a cada resfriado, dor de cabeça e de barriga. Me dava bicarbonato, mingau, doces e balas. Alegria e perfume. Como era cheirosa minha Azaléia!

Acompanhou com ternura minha juventude. Tínhamos uma sintonia completa. Era minha namorada, minha mãe, minha confidente, meu travesseiro. Era ela. E eu dela.

Eu choro. Porque isso acontece sempre. Mas por ausência dela é novidade. E não é bom.
Queria escrever enquanto há tempo. E meu entendimento e lembrança faz dessa flor a mais linda e inesquecível memória da minha vida. Não sei quanto tempo isso dura. Nem o quanto tempo eu duro. Mas Azaléia foi simplesmente amor puro. Encarnado, convicto e maduro.

Nesse trem da vida, chegou a sua estação. Eu estava logo ali. No assento ao lado. Mas não despediu de mim. Foi de propósito Deus? Se ela tivesse a chance, se tivesse tempo sei que a faria. Num chamado, num olhar. Encostando a testa em mim em silêncio, como fazia quando queria falar algo diretamente ao meu coração. Mas não. Fui dar bom dia e o encantamento já chegara. E se foi.

O vento levou Azaléia para alguns passos a minha frente. Não posso correr atrás. O vento é forte e é ele que nos empurra. Na minha frente tem poeira, já não posso vê-la. Só há terra a frente, onde eu não posso ir. Por enquanto. Que descompasso! Ela que andava sempre segurando a minha mão, em um instante, já nem mais a toca. E agora?

Eu já sabia. Que seria assim. Mas como é difícil! Aquela que me chamava de filho. E era minha mãe. Que me alimentava, me nutria, me fortalecia e me construía. Minha Azaléia.

Desculpe Azaléia. Os últimos dias não foram fáceis. Sou testemunha. Principalmente para uma alma que gostava de viver. Que era jovem e muito forte. Vivia a 94 anos como pétalas de uma bela flor. Bonita, cheirosa e rosa. Saiba que sua dor era a minha dor. A dor da vida. Que caminha e caminha, mas um dia chega no ponto final. E eu chorava escondidinho acompanhando a minha incapacidade de alterar esse rumo.. Mas foi tanto choro escondido que até você percebeu, esperta como era. Eu fiz o que eu podia. Mas foi pouco. E o que eu queria era que mais uma vez, como tantas outras que você dissera para mim, “-é meu filho, dessa eu escapei”. Mas parece que no adiantado da hora, mesmo com o tanto que a provoquei (viva!), o seu cansaço foi mais forte, e o que disse dessa vez foi “ - para o céu agora voltei.”

Uma vez há pouco tempo era dia das mães. E era para minha mãe. Perguntei a Policena: -”o que vou te dar de presente?” Ela respondeu: “- eu já tenho tudo.” Então eu insisti. “-Não, minha mãe tem que ter presente!” E ela: “- Isso Deus já me deu. É você”. Mas já que tanto insiste, me dê a flor que eu mais gosto, Azaléia, que eu já fico contente.”


Adriano Goulart que amará eternamente
Policena de Freitas Goulart (*19/02/1919 - +04/08/2013)






quinta-feira, 18 de julho de 2013

Human Bodies – Adriano Goulart


Human Bodies – Adriano Goulart

Ontem estive na exposição “Human Bodies”. Para quem não conhece, após o texto coloco a descrição do que é esse evento.

Queria registrar o impacto que foi para mim a oportunidade de ver o trabalho minucioso feito pelos especialistas de preparar o corpo humano, nu e cru, para exibição ao grande público, em grande parte, leigos como eu, mas que acima de tudo, podem refletir sobre algumas coisas. Eis as minhas constatações:

Você já se olhou no espelho e notou algo que não era seu do outro lado do espelho, mas paradoxalmente te acompanhava em toda sua existência? Um ser estranho e completamente associado a você? Horroroso e fascinante ao mesmo tempo? Eu me senti assim quando olhei para a primeira obra-prima exposta na exibição.  Chamo de obra-prima porque não há outra palavra com as quais o significado se adeque melhor. Obra-prima do Criador. De um artista. O maior.

Nós somos uma máquina. Esplêndida! Fascinante! Absurdamente complexa. Obra de uma engenharia divina. Sem precedentes. Eram os deuses astronautas? Não sei. Mas no quesito carinho e detalhe, o Criador abusou!  Eu olhava aquele corpo aberto, dessecado. E ele olhava para mim. Não tenho ideia de quanto tempo eu olhei fixamente para o que estava em minha frente. Mais de 10 minutos provavelmente. O que eu descobria ali era novo. Porque um livro bem ilustrado, todas as aulas de biologia durante o ensino fundamental e médio que eu tive, documentários e por aí vai, não são capazes nem de perto de causar o impacto do que é se ver aberto e real bem a nossa frente. 

Os produtores do evento foram perfeitos. Acertaram em suas decisões. Porque já na antessala, a primeira bancada com órgãos humanos logo no início da exposição, nos apresentam os pés. Só o osso. Para a gente não tropeçar com as emoções durante o processo.  E quão impactante foi  conhecer de perto a anatomia do pé. Não conseguia parar de olhar. Não é estranho? Fiquei igual menino, olhando em baixo da escultura, da obra-prima, repito, que é um calcanhar. Virei um matemático. Como pode um osso daquele tamanho, sustentar o peso de um corpo de 80, 90 ou mais de 100 quilos? O ângulo mais perfeito que já vi. Harmonioso. Competente. Eu fiquei chocado. De verdade. 

Logo após vieram as mãos. Viradas, com a palma para cima. Só elas. Espetaculares! Impecáveis. Os ligamentos, a forma com que ossos, músculos, artérias, veias e nervos, ligamentos, tendões, pele, se ligam num espaço tão pequeno é comovente. Dignas de lágrimas pela simples possibilidade daquilo acontecer. Aplausos sinceros. 

Confesso que a próxima sala, com os membros inferiores e superiores me causaram dor. A complexidade dos músculos com os cortes precisos nos ossos me assustou um pouco. O joelho e o famoso menisco são mesmo muito delicados. O mecanismo da alavanca no cotovelo também é um caso a parte. Especiais. 

Depois vieram os aparelhos digestivos, os órgãos reprodutivos, aparelho pulmonar, muscular, cérebro, órgãos da face, cada um com uma riqueza de detalhes que valem a pena a intensidade do momento e um pouco de embrulho no estômago. O meu. Mas nenhum outro sistema,  surpreendeu mais que o circulatório. 

Os cientistas conseguiram reproduzir todo o sistema. Todas as ramificações. Das grandes artérias até o minúsculo vaso. Um choque. Temos outro ser dentro de nós. Absurdo. Magnifico! “Aqui tem sangue nas veias!”, diriam as pessoas. E tem mesmo. Muito. Muito mesmo.

Momentaneamente havia me esquecido daquilo. Transportei-me para uma reflexão profunda. Transcendente. Viajei. O que era aquilo que estava vivenciando? Aquele ser vermelho que está dentro da gente, bombeado pelo coração e que me trouxe algo humanamente divino. Fantástico. Divinamente humano. Material e especializado. Para que estamos aqui? Para onde vamos? Grandes e sinceros dilemas da nossa humanidade. Tudo ali. Resquícios da existência humana. Que só nos aparece quando nos corta a carne. Quando toca-nos o coração. Agressivo e extremamente singelo e pacífico. Que loucura!

Chegando ao final, a pele. Ligada ao corpo, rodeando os músculos. Derme, epiderme e não menos estonteantes. Fazendo-nos lembrar o que é a ilusão. O que nossos sistemas sociais, culturais e históricos nos fazem pensar que somos. E que na verdade somos totalmente iguais. Por dentro da máquina. O que o que a gente vê mesmo é a imagem. O reflexo da caverna de Platão. A constatação de que o que temos é quase um elemento mitológico dentro da gente.  Uma construção de algo que é muito mais profundo e inatingível para nós. Que nossa incompreensão é explicita,  mas verdadeira e sofrida. Uma capa. De algo totalmente sagrado. Um templo. É o que temos.

Imaginei os primeiros cientistas, iluministas e até os anteriores pesquisadores, desbravando aqueles corpos. Todo mistério e todo tabu que compreendia aquele templo, o corpo humano. Bandeirantes aventureiros. É o que eles eram. Agradeci pela vida deles. Pela coragem que tiveram. E agradeci pela ciência humana. Por trocarem os “pneus da vida humana, com o carro andando”.  A medicina, a biologia, a química, a física. A psicologia. A nutrição Como são importantes!

Atesto minha inquietude. Perturbei-me. Somos demais! Espetaculares! Que máquina indescritível! E que Criador carinhoso. Indecentemente apaixonado. Preocupado com detalhes invisíveis e totalmente essenciais. À natureza, meu muito obrigado.

"E Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. “E contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom. Sobreveio à tarde e depois a manhã: foi o sexto dia." Gênesis, 1; 27:31

Sobre a Exposição
O HUMAN BODIES – MARAVILHAS DO CORPO HUMANO nos leva para uma jornada fascinante através do nosso bem mais precioso: nossos corpos impressionantes, uma coisa que frequentemente não compreendemos completamente.
Essa exibição é desenhada para mudar isto.
Trata-se de um mergulho tri-dimensional para dentro destes sistemas – pele e ossos, dos pés à cabeça – todos com o objetivo de ajudar as pessoas, a tomar decisões mais informadas sobre os cuidados com a saúde e o estilo de vida.
A mostra internacional foi projetada numa grande estrutura onde estão galerias que levam os visitantes através do corpo humano e corpos completos, em poses confortáveis e familiares, ilustrando os sistemas numa forma dinâmica. Há ainda vários espécimes de órgãos que ajudam os visitantes a investigar e entender mais a fundo as estruturas de cada sistema.
Os corpos foram tratados pela mundialmente conhecida da plastinação, que promove a conservação aos mesmos com textura e coloração permanentes.
Durante todo o percurso são gerados informações de forma prestativa para visitantes de todas as idades.
Muito criativa e informativa, a exposição interessa a todo tipo de público, é uma excelente oportunidade de conhecer os detalhes do nosso corpo.


terça-feira, 9 de julho de 2013

Sobre a morte do MC Daleste. (Adriano Goulart)


Sobre a morte do MC Daleste. (Adriano Goulart)

"Tá lá mais um corpo estendido no chão...." MC o que mesmo? Morreu tomando um tiro enquanto fazia um show de funk. Agora virou notícia. Ficou famoso. 
Tem gente fazendo poesia, dizendo o tanto que o menino era legal. Legal?
Um pobre coitado, como tantos outros que fazem sucesso instantâneo no youtube com sons medíocres, e na outra semana voltam a lavar carros , porque jamais terão oportunidades efetivas de serem o que acham que é bom. Essa é a tragédia. Do dia-a-dia. 

Nós? Uma sociedade hipócrita que valoriza a gozação, a prostituição avulsa e sem sentido das meninas nas letras de funk, a chamada "ostentação" num estilo músical, de gente que nem se quer tem água tratada em casa para beber. "Oi nóis convida porque sabe que elas vem." Essa é a tragédia. 

O menino morreu. Com todo respeito a ele e a sua família e tantos outros, já estavam mortos. Mortos de vida, e vida em abundância. De vida que vale a pena. E não a lástima de futuro com que sonhava ou sonham esses meninos. Uma riqueza vazia e pronta para correr por entre suas mãos. Porque eles nem sabem o que é isso. Vida. Não tiveram e nem tem chances nem sequer de ter isso dignamente.  Essa é a tragégia. 

Pobreza e miséria sempre fizeram parte de suas histórias. Quantos deles terminam o ensino fundamental? Quantos deles tem oportunidade de ir ao médico, a um oftalmologista, a um dentista  ao menos 1 vez ao ano? Quantos deles tem comida na mesa diariamente? Se sobreviverem aos tiros dos traficantes e da polícia na idade que tem, poucos chegarão aos 60, pois não tiveram educação, saúde , segurança e por aí vai. Essa é a tragédia. 

A gente valoriza a morte. A violência. Isso fica claro quando o que sai na mídia é o "tiro e sangue do menino" e não as mazelas que estão ao seu redor. 

A gente valoriza o sexo e prostituição. Quando acha engraçado meninas que não sabem nem falar, e não tiveram mães ou pais que disseram que o ato de mostrar a bunda para aparecer é feio, ao contrário do que elas pensam, ser bonito. 

A gente valoriza a burrice, quando compartilha imagens e textos completamente idiotas e medíocres, só porque tem um sonzinho bacana. Essa é tragédia. 

Tem alguém preocupado ou chocado com a morte desse menino de verdade? Essa é a tragédia. Quem compartilha isso está preocupado em verdade é com sua própria vaidade. Com a chance de atrair para si atenção de seus perfis e textos, através da mesma receita: morte, violência, sexo, dinheiro e burrice. Muita burrice. Essa é tragédia. Amanhã outro morre e quem era mesmo o menino que morreu semana passada?

Diria Renato Russo, "vamos celebrar o horror de tudo isso, com festa, velório e caixão. Está tudo morto e enterrado agora , já que também, podemos celebrar, a estupidez de quem cantou essa canção." 

Morreu.

Adriano Goulart